domingo, 17 de junho de 2007

Primeira ou Terceira Pessoa?


Outro dia estava discutindo com um amigo meu o que é mais imersivo em jogos: a perpectiva em primeira ou em terceira pessoa.
Eu sempre achei bastante óbvio que um ponto de vista "nos olhos" de um personagem (seja isto num livro, num filme, ou num jogo) era sempre mais imersivo do que ver (ou imaginar) o personagem exteriormente.
Acredito que o ponto de vista (literalmente) é um fator crucial para se determinar imersão, pela seguinte razão: acompanhar uma história pelos olhos do personagem é (ao meu ver) a forma mais íntima de interação possível sem ser o próprio personagem.
Concordo que (no caso de jogos eletrônicos, ou filmes) a visão natural do personagem é limitada pelos fatores tecnológicos da interface usada (monitores, televisões, telas de cinema), mas ainda assim acredito que recursos (deformação da imagem, por exemplo) podem ser utilizados para "enganarmos" nossos olhos. Afinal de contas, nós, seres humanos conseguimos focalizar há 30cm de distância, uma pequena área mais ou menos do tamanho de uma moeda de 1 real.
Para mim isto foi sempre óbvio, mas o interessante de se conhecer outras mentes é ver outros pontos de vista.




3 comentários:

miray disse...

Olá Fozzy!
Na minha opinião, a imersão de um jogo depende de uma série de fatores, como o som, ambiência, trilha sonora, movimentação, inteligencia artificial dos NPCs, grau de realismo imagético, roteiro, construção de personagens etc(essa lista vai longe).
Todos esses fatores atuam de certa maneira, para te colocar dentro da diegese do game (ou não), sendo o ponto de vista do personagem apenas um dos fatores, e na minha opinião um fator não-decisivo.

Quando conversamos sobre o assunto você me apresentou alguns bons exemplos de jogos em 1ª pessoa que são muito imersivos. Agora lhe pergunto, você analisou com cuidado esses outros fatores que eu citei? Com certeza eles são muito bem trabalhados, e compõe um conjunto de "linguagem" que acaba influenciando na experiência do jogar.

Por exemplo, aquele jogo que você mesmo me passou, me dizendo ser uma experiência emocionante, o DefCon. O grau de realismo imagético daquilo é extremamente baixo, mas o jogo causa sensações extremamente realistas, usando da trilha sonora, efeitos sonoros e principalmente, do imaginário do usuário! Uma pessoa que não tem experiências audio-visuais, literais ou mesmo reais com o horror da guerra dificilmente vai sentir a sensação de desconforto e arrependimento que o jogo causa. Nós que temos um pequeno esclarecimento sobre o assunto podemos trazer centenas de imagens do nosso subconsciente e aquela experiencia torna-se EXTREMAMENTE imersiva.

Outro bom exemplo de imersão seria a série do Katamary Damacy, mas esse eu deixo para o Vitor falar com mais propriedade. Vitor, quão imersivo Katamari pode ser? Oque nos causa aquela porrada de sensações, aquela euforia, que sentimos ao jogar?

Não acho que podemos cravar uma regra em pedra: Jogos de X pessoa são mais imersivos que os jogos de Y pessoa. Acho que temos que analisar vários fatores e daí sim poderemos fazer uma análise séria.

Evelyn disse...

Meu Deus!!!
Não sei o que comentar... quando leio eu sempre entro na história, mas aí em jogos eletrônicos...

*assustada com o tamanho do post anterior*

rs

Victor disse...

Oi Fozzy!

Vou começar fazendo um desvio no tema do tópico:
Imersão, para mim, tem a ver com você desligar-se da sua realidade e (dã) imergir num mundo outro, que oferece sensações diferentes, histórias diferentes, etceteras diferentes.
Eis o grande papel da imersão: suscitar uma suspensão da descrença [conceito muito usado em teoria do cinema. o espectador cessa de desacreditar no caráter construído daquilo que vê (afinal, são só imagens bidimensionais que representam a realidade tridimensional) - e imerge naquela narrativa, se identifica com os personagens, compartilha sensações, enfim]

E o cinema (e os jogos, herdeiros de certas tradições cinematográficas) tem um tipo de guia, de fórmula a seguir. Sai Arqueólogo Intrépido, entra Pirata Simpático. Sai Darth Vader, entra Agente Smith.

Por mais que as HISTÓRIAS contadas sejam diferentes, as SENSAÇÕES são muito semelhantes. Fundamentalmente consegue-se essa identificação com o protagonista (homem, branco, heterossexual) através de uma câmera-cúmplice. O espectador vê mais ou menos o que o personagem vê. Compartilhando esse olhar, tanto o espectador quanto o personagem se assustam, se apaixonam, se emocionam com as mesmas coisas, mais ou menos. Um exemplo clássico é o do 'Vertigo' do Hitchcock. Você só vê o que o protagonista vê (mas raramente PELOS OLHOS DELE), durante a primeira metade do filme. E com isso, protagonista e espectador tornam-se ligados, vinculados.

Na segunda metade do filme, você conhece outro ponto de vista - que o protagonista desconhece, o que só aumenta o suspense! Você sabe de algo crucial que o seu camarada ali na tela nem imagina!!! Oh, que agonia! (Você sabe do que eu estou falando. Quando a câmera assume o ponto de vista do vilão, prestes a assassinar o mocinho desavisado, por exemplo)

É - bem toscamente explicado - mais ou menos esse o mecanismo de identificação entre protagonista e espectador. Se quiser se aprofundar no assunto, vide Ismail Xavier - O Discurso Cinematográfico: Opacidade e Transparência.


A imersão. Sim, a imersão.
Há uma prova pelo absurdo de que ver pelos olhos do protagonista (com quem espera-se criar identificação) não funciona muito bem. Tem um filme com o Humphrey Bogart, que é sobre um ladrão que faz uma cirurgia plástica pra fugir das autoridades. As primeiras sequências são inteiramente feitas em primeira pessoa. Aí o cara faz a tal cirurgia plástica e ganha a cara do Bogart e a câmera "sai".

Talvez não seja só por esse motivo (não vi o filme), mas esse procedimento causou uma estranheza muito grande no público. O filme - cujo nome eu não me recordo - foi um fracasso de bilheteria.
De todo modo, o cinema historicamente preferiu que o espectador se veja projetado na tela, e não DENTRO da tela.


Passo aos games:

Ando meio desatualizado, mas já joguei vários jogos em primeira pessoa e vários em terceira. O que há de comum entre todos os jogos em primeira pessoa: o risco de ser pego de surpresa por um inimigo fora do seu campo de visão, a ilusão de perspectiva mais acentuada, uma violência maior CONTRA a câmera/seus olhos. Entretanto, esses jogos - como disse acima - seguem um padrão. Há os jogos mais assustadores e os menos, os gráficos mais realistas e os menos (só consigo lembrar daquele Shooter do South Park pra N64. É quase regra os shooters almejarem a um realismo extremado). O que eu quero dizer é que em EM LINHAS GERAIS, não tem muita diferença em jogar DoD, Counter-Strike, Unreal, Deus EX... as SENSAÇÕES são mais ou menos as mesmas.


Toda essa discussão surgiu por causa da bugiganga que estão inventando, na qual o jogador, dentro de uma roupa especial, com uma câmera projetada sobre ele e uma tela à sua frente, SE VÊ dentro de um game, interagindo com aliados, inimigos e o escambau. Porque eu acho que é uma experiência muito mais rica SE VER num trem desses do que VER O MUNDO com um trem desses: é uma sensação nova, pouco explorada pelos games. Ver-se descorporalizado, ou então re-corporalizado. Ver-se em outro corpo, caralho. Agindo, pulando, andando. É o seu corpo que pula. Mas você não vê o mundo chacoalhando, você vê um outro corpo (virtual) obedecendo ao que o seu corpo físico manda.

Com essa ciência de que os shooters em primeira pessoa via de regra almejam ao realismo, e percebendo que a computação gráfica ainda está muito abaixo do REAL (que me desculpem todas essas modelos virtuais "gostosérrimas", mas elas ainda estão muito mais perto da Barbie do que da Pamela Anderson), eu tenho a sensação que um aparato desse, em primeira pessoa, seria quase como um paintball piorado. Onde eram fotons-reais, agora são uns pixels-realistas. Não dá pra comparar.


Agora, essa experiência de descorporalização é algo muito mais instigante para mim. Você nunca se divertiu fazendo algum bonequinho em algum jogo fazer algo ridículo, ou estúpido, ou erótico, ou o que seja? Eu já (mas não lembro de exemplos).
Mas e se ao executar esse comando, o meu próprio corpo estivesse também se sujeitando ao ridículo?

São perguntas como estas que me levam - neste primeiro momento, e no caso daquele aparelhinho em particular - em direção à descorporalização, e não à "imersão". Ao invés de REPRESENTAR o avatar, o Outro, através de um joystick, ou um teclado, SER o avatar.

Sei lá. Novas maneiras de estar no mundo.


Acabou não cabendo um comentário sobre o Katamari, mas se a discussão continuar, quem sabe.


Abraços!